A LINHA
Estações, Apeadeiros e Paragens da Linha Ferroviária do Tua

POR ENTRE ESCARPAS, MONTANHAS E MONTES

A linha ferroviária do Tua, quando completa, teve 134 km de extensão. Foi a primeira linha ferroviária a ser construída exclusivamente em Trás-os-Montes e, tal como se tinha verificado noutras situações em que o terreno era tortuoso e curvilíneo, foi construída com uma só via e em bitola estreita ou métrica (1m de largura entre carris). Por ser uma linha subsidiária de uma principal, o seu Km 0 fez-se coincidir com o Km 132 da Linha do Douro, em bitola normal ou ibérica (1,67 m), onde os Caminhos de Ferro do Douro e Minho tinham a estação Tua, sendo partilhada pelas duas empresas durante 121 anos (1887-2008).

A Linha do Tua foi construída em duas etapas, a primeira, com 54 km, decorreu de 1884 a 1887 e limitou-se ao vale do rio Tua, metendo-se por este adentro até alcançar Mirandela, servindo as populações dos concelhos transmontanos do sul, de uma e outra margem do rio, em, inicialmente, 10 locais. A estação de Mirandela, até 1906 e durante 19 anos, foi o centro de distribuição de vasto território, entrando e saindo daqui pessoas e produtos dos concelhos sem ligação ferroviária.

A 2.ª etapa construtiva, de Mirandela a Bragança, foi iniciada em 1903 e concluída em 1906. Tomou a direção de vales menos ásperos, embora com altitudes cada vez maiores, por entre as serras de Bornes, Nogueira e do Planalto do Nordeste Transmontano, num total de 80 km ao longo dos quais houve, originalmente, 12 pontos de embarque.

De lá para cá, dos primeiros aos últimos tempos, a Linha do Tua passou de 22 localizações previstas com serviço de passageiros para 38 efetivas em simultâneo. Isso foi conseguido mais pela adaptação de edifícios existentes em paragens, estações e apeadeiros, do que através de construções novas.
 

ESTAÇÕES, APEADEIROS E PARAGENS DA LINHA FERROVIÁRIA DO TUA

Para a seleção e distribuição dos edifícios a construir ao longo da Linha do Tua consideraram-se as vias de comunicação existentes, terrestes e fluviais, a proximidade com o maior número de localidades possível, a densidade demográfica e as atividades económicas praticadas na área de influência.

Na imediação de interseções da linha férrea com estrada ou caminhos públicos houve que construir Casas de Guarda de Linha, posteriormente conhecidas por Casas de Guarda de Passagem de Nível. Nesses edifícios viviam os Guardas de Passagem de Nível, responsáveis por impedir a passagem do trânsito viário durante a aproximação do comboio. No 1.º troço da Linha do Vale do Tua (Foz Tua-Mirandela), sempre ao longo da margem esquerda do rio, estabeleceram-se Casas de Guarda de Linha em locais remotos, aparentemente sem qualquer utilidade, cuja razão se relaciona com locais onde as populações, de uma e outra margem, faziam a travessia do rio a vau, sobre poldras ou de barca, como são os casos de Castanheiro e Tralhão.

Junto dos lugares, aldeias ou vilas, optava-se pela construção de edifícios e infraestruturas mais amplas e complexas, quer na tipologia de apeadeiros quer de estações. Quando se estabelecia a construção de um apeadeiro, com uma só linha de serviço para o embarque e desembarque de passageiros e bagagem e, eventualmente, uma linha de cais para carga e descarga de mercadorias em vagões, estava implícito um regular e normal fluxo de pessoas e mercadorias. Subjacente à construção de uma estação, com mais que uma linha de serviço, normalmente usadas para cruzamento de comboios, além da linha de cais (ou de saco), com bilheteira e sala de espera, se admitia grande afluência de pessoas e movimento de mercadorias.

Na 1.ª fase de construção da Linha do Tua, entre 1884 e 1887, foram construídas as estações São Lourenço, Brunheda, Vilarinho e Mirandela e os apeadeiros de Tralhariz, Amieiro/Santa Luzia, Abreiro, Cachão e Frechas. Porém, antes do arranque da construção do prolongamento da linha a Bragança, em 1903, o mesmo troço, entre Foz Tua e Mirandela, contava com mais 5 edifícios e respetiva infraestrutura, 2 com a função de apeadeiros, como Codeçais e Ribeirinha, podendo acomodar residência para o Chefe de Estação e espaço coberto para Passageiros e mercadorias, além de outros 3 de menores dimensões, visto terem sido Casas de Guarda de Passagem de Nível e Casas de Partido (serviço de manutenção da via férrea) convertidas em paragens e apeadeiros, como Castanheiro, Tralhão e Latadas, sem espaço interior para passageiros. Situação idêntica ocorreu depois da conclusão da 2.ª fase da ferrovia, até Bragança, em São Sebastião, Vilar de Ledra, Castelãos, Avantos, Castelãos, Valdrez, Remisquedo (casas de Guarda de Linha), Salselas, Fermentãos e Rebordãos (casas de Partido).
 

GLOSSÁRIO

A
Apeadeiro
Ponto de paragem de comboios, para entrada e saída de passageiros, normalmente sem serviço de mercadorias e com a presença de um/uma Guarda de Passagem de Nível, sem meios mecânicos e infraestruturais para interferir na circulação ferroviária.

C
Casa de Guarda de Linha
Pequeno edifício, por norma com cozinha e quarto, onde residia o Guarda de Linha localizado junto ou próximo das intersecções da ferrovia com as estradas nacionais, municipais ou caminhos públicos, de modo a impedir a travessia de veículos, pessoas e animais durante a aproximação e a passagem do comboio. 

Casa de Partido
Em pontos isolados de uma linha, era o edifício destinado a alojar os operários que trabalhavam na conservação da via-férrea, dispondo de cozinha e dormitório para o pessoal, incluindo um quarto para o Capataz.

E
Estação

É o espaço ferroviário composto por edifícios para serviço de passageiros, com bilheteira, sala de espera e até restaurante, de mercadorias, e técnicos como os de controlo da circulação ferroviária e/ou oficinas de reparação/manutenção, associados a um conjunto de vias férreas, controladas por equipamentos manuais ou eletrónicos específicos, por onde circulam comboios. De acordo com a dimensão e o movimento de pessoas, mercadorias e comboios, há estações de gestão complexa. No caso, a estação de Mirandela, estação términus durante 19 anos, entre 1887 e 1906, foi a maior e mais importante estação da CN-Companhia Nacional de Caminhos de Ferro, chegando a atingir 20 linhas. Como única companhia privada em Trás-os-Montes, e a primeira a construir ali caminhos de ferro de via estreita, a CN considerada a implantação geográfica, teve a necessidade de grande investimento para criar as condições de autonomia para operar, e desenvolver-se, à medida da importância crescente dos seus serviços para a região. Como estação principal, as circunstâncias exigiram a construção de oficinas de reparação e manutenção de locomotivas, carruagens, furgões e vagões, com as valências de mecânica, pintura, carpintaria, etc., bem como de outras instalações de apoio ao serviço e alojamentos de pessoal e respetivas famílias explicam a grandeza da Estação de Mirandela, quer em número de pisos (3.º andar, tal como Lisboa Santa Apolónia) quer em área total ocupada, gerindo uma linha com 134 km.

P
Paragem

É o espaço ferroviário usado apenas para entrada e saída de passageiros, em zona de baixa densidade populacional, sem caráter regular ou com serviço sazonal como em dias de feira ou de mercado em Mirandela, Macedo de Cavaleiros ou Bragança, por vezes sujeito ser sinalizado ao pessoal de serviço nos comboios, para a paragem se verificar. Os elementos construídos nestes pontos eram a plataforma de embarque e algum pequeno edifício para abrigo de passageiros.

Poldras
Paralelepípedos altos e facetados de granito, dispostos em linha e separados entre si, que permitem o atravessamento a pé de pequeno curso de água.

V
Vau
Ponto onde, num curso de água, uma pessoa pode passar a pé ou montada em cavalgadura (cavalo, burro).